quinta-feira, 16 de Outubro de 2008

PÉROLAS DE FERNANDO PESSOA/RICARDO REIS




"Quanto faças, supremamente faze.
Mais vale, se a memória é quanto temos,
Lembrar muito que pouco. E se o muito no pouco te é possível,
Mais ampla liberdade de lembrança
Te tornará teu dono."

"Somos estrangeiros onde quer que moremos. Tudo é alheio
Nem a língua é nossa.
Façamos de nós mesmo o retiro
Onde esconder-nos, tímidos do insulto
do tumulto do mundo.
Que quer o amor mais que não ser dos outros?
Como um segredo dito nos mistérios,
Seja sacro por nosso. "

"Ninguém a outro ama, senão que ama
O que de si há nele, ou é suposto.
Nada te pese que não te amem.
Sentem-te
Quem és, e és estrangeiro.
Cura de ser quem és, amam-te ou nunca.
Firme contigo, sofrerás avaro de penas."

"Que é qualquer vida? Breve sóis e sono
Quanto pensas emprega
em não muito pensares.
Ao nauta o mar obscuro é a rota clara.
Tu, na confusa solidão da vida,
A ti mesmo te elege

(Não sabes de outro) o porto."

"Vive sem horas.
Quanto mede pesa,
E quanto pensas mede.
Num fluido incerto nexo, como o rio
cujas ondas são ele,
Assim teus dias vê, e se te vires
Passar, como a outrem, cala".

" Cada dia sem gozo não foi teu
Foi só durares nele. Quanto vivas
Sem que o gozes, não vives.
Não pesa que amas, bebas ou sorrias:
Basta o reflexo do sol ido na água
De um charco, se te é grato.
Feliz o a quem, por ter em coisas mínimas
Seu prazer posto, nenhum dia nega
A natural ventura! "

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